Se você tem um voo da Qatar Airways, Emirates ou Etihad nas próximas semanas ou meses, é natural estar apreensivo com a situação ainda não resolvida envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Eu voei na semana passada de São Paulo para Hong Kong com a Qatar, em uma viagem planejada há quase um ano, e passei nos últimos dois meses pelas mesmas dúvidas, alterações, aflições e questionamentos que muitos viajantes provavelmente estão tendo agora.
Se esse também é o seu caso, quero compartilhar um pouco do que vi até aqui, desde o começo da guerra até a última sexta-feira, dia do meu voo.
Além da tragédia humanitária da guerra em si, o conflito afetou diretamente milhares de viajantes ao redor do mundo. Houve fechamento do espaço aéreo em países como Catar e Emirados Árabes Unidos, justamente onde ficam dois dos principais hubs globais da aviação: Doha, no Catar, e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Airbus A350 da Qatar no Aeroporto Internacional de Hamad, no Catar.
Com isso, milhares de voos foram cancelados, conexões foram interrompidas e passageiros tiveram viagens adiadas ou completamente refeitas. Outros chegaram até mesmo a ficar presos por alguns dias nesses países. Foi um nível de instabilidade na aviação que não se via há décadas.
E os impactos seguem sendo sentidos até agora. O preço do combustível de aviação disparou durante o auge da crise e as passagens aéreas também ficaram mais caras, especialmente nas rotas alternativas via Europa, África e Estados Unidos.
Sala de embarque no Aeroporto Internacional de Hamad, em Doha, no Catar.
Hoje, 12 de maio, Qatar Airways, Emirates e Etihad (que opera em Abu Dhabi) já operam com relativa normalidade, embora ainda não tenham retomado 100% das operações. Segundo o Flightradar24, em 11 de maio, a Emirates é a mais avançada, com cerca de 80% de voos operados. Já a Qatar tem cerca de 50% dos voos de antes da guerra em operação.

Algumas rotas seguem suspensas, incluindo para cidades importantes como Bruxelas e Osaka, além de ligações regionais como Doha–Dubai pela Qatar Airways. No Brasil, a Qatar Airways ainda opera menos frequências do que antes da crise: dos três voos diários para São Paulo, atualmente entre um e dois estão sendo realizados.
A expectativa do setor é que a malha seja totalmente retomada até meados de junho, caso a situação continue se estabilizando – e todos nós torcemos para que isso aconteça.
Há cerca de um ano, eu planejava uma viagem para China e Japão. Emiti os voos com milhas na Qatar Airways, companhia que considero hoje uma das melhores opções entre Brasil e Ásia pelos horários, conexões e pelo próprio serviço oferecido.
Quando a guerra começou, em fevereiro, eu sinceramente achei que seria um conflito curto. Até porque, no ano passado, já houve um episódio semelhante entre Israel e Irã que afetou a aviação da região por cerca de 12 dias.

Mas as semanas passaram, a guerra completou um mês e não havia qualquer sinal claro de desescalada. E isso colocava em risco uma viagem muito esperada, já com hotéis, passeios e deslocamentos praticamente todos organizados.
Comecei então a estudar alternativas via Europa, Estados Unidos e até África. O problema é que, justamente por causa da crise, as rotas alternativas dispararam de preço e ficaram muito mais concorridas.
Mas, em poucos dias, Qatar Airways e Emirates retomaram parcialmente os voos para o Brasil e outros países, utilizando rotas consideradas relativamente seguras. Decidi então manter a viagem, a calma e esperar o desenrolar da situação. E, até aqui, acredito que foi a melhor decisão.
Hoje existe uma trégua nos ataques e os países seguem negociando. É um cessar-fogo ainda frágil, claro, mas a impressão é de que ninguém deseja prolongar indefinidamente um conflito que já trouxe custos humanos e econômicos enormes para toda a região.
Meu voo entre o Aeroporto de Guarulhos e Doha aconteceu na sexta-feira, às 2h da manhã, no Terminal 3. Foi o único voo da Qatar Airways saindo do Brasil naquele dia.
A única coisa diferente em relação a outras viagens foi que, até a hora do check-in, recebi vários alertas de pequenas alterações nos horários dos voos, tanto no trecho de Guarulhos quanto no de Hong Kong. Eram mudanças de 10 ou 20 minutos, que não comprometiam a viagem como um todo, mas mantinham aquela sensação de que a operação ainda estava sendo ajustada.
Cheguei a Guarulhos com bastante antecedência, pois moro em Curitiba e precisava despachar bagagem. O check-in da Qatar no Terminal 3 fica na área H e ocupa uma área ampla, o que mostra a importância da operação da companhia no Brasil.

Para quem também vai despachar bagagem, vale anotar: o check-in abre quatro horas antes do voo. O processo é mais rápido para quem faz o web check-in, mas todos os passageiros, inclusive os que não despacham mala, precisam passar pelo balcão para conferência de documentos.
Por volta das 22h50, deixei a mala no balcão da Qatar sem enfrentar fila. Havia vários atendentes em todas as classes, e os passageiros eram atendidos com rapidez. Com as malas despachadas, entrei na área de embarque e segui para a sala VIP da Latam, parceira da Qatar Airways. Apesar de viajar em classe econômica, tive acesso por voar com a Qatar e ter status no programa Latam Pass.
Não vou dizer que fazer esse voo parecia uma viagem qualquer. Havia, sim, uma certa tensão no ar, e cheguei a ouvir um ou outro comentário sobre a guerra. Mas todos esperávamos – e torcíamos – para que tudo ocorresse dentro da normalidade. E foi o que aconteceu.
O embarque ocorreu rapidamente e, em cerca de 30 minutos, o Boeing 777-300 já estava praticamente cheio. Ao contrário do que vinha acontecendo algumas semanas antes, quando alguns voos da companhia saíam com ocupação mais baixa, a impressão agora era de uma boa retomada da demanda, com poucos assentos vazios.

A Qatar Airways segue sendo uma excelente opção, mesmo na classe econômica, com serviço de bordo acima da média. A companhia oferece um pequeno kit com escova de dentes, tapa-olhos, protetores auriculares, manta e travesseiro. O espaço não chega a ser generoso, mas também não é apertado como em algumas companhias.
As refeições, produzidas pela Quisine, o catering da companhia, estavam muito boas e saborosas. A tripulação também foi simpática, profissional e solícita, com alguns comissários estrangeiros falando português, o que reforça o cuidado com a operação brasileira.
Outro ponto positivo foi o wi-fi da Starlink. A conexão gratuita funcionou muito bem durante todo o voo, um diferencial importante para passar as 14 longas horas até Doha. Além disso, o sistema de entretenimento da companhia, com conteúdos e traduções em português, também mostra a relevância da rota brasileira para a Qatar.
Com isso, qualquer sensação inicial de tensão foi ficando para trás. A bordo, a experiência seguiu dentro da normalidade, e continuamos a longa jornada entre Guarulhos e o Aeroporto Internacional de Hamad, em Doha.
Voo da Qatar Airways entre Doha e Guarulhos sobrevoando o Egito
Depois das intermináveis 14 horas de voo, chegamos ao fantástico Aeroporto Internacional de Hamad, em Doha. Eu já havia passado por lá outras duas vezes e percebi logo de cara que algo não estava exatamente como antes.

O aeroporto seguia funcionando normalmente, mas com movimento bem menor do que eu lembrava. Em outras viagens, Doha parecia um verdadeiro formigueiro em praticamente qualquer horário do dia, conectando passageiros entre todos os cantos do mundo. Desta vez, a sensação era de retomada: menos gente circulando, mas um fluxo que já parece voltar aos poucos.
A Qatar Airways, claro, é o grande motor do terminal. Uma operação reduzida da companhia impacta diretamente o movimento do aeroporto. Além disso, muitas companhias estrangeiras que voam para Doha ainda não retomaram totalmente suas frequências. Ainda assim, para o passageiro em conexão, a experiência segue bastante normal.

Quem faz conexão em Doha por poucas horas passa apenas pela inspeção de bagagem de mão e pelo raio-x logo após a chegada, antes de acessar novamente a área de embarque. O aeroporto é gigantesco, mas bem sinalizado e fácil de circular.
Lojas, duty free, transfers, restaurantes e salas VIP seguem funcionando normalmente, embora alguns serviços possam operar com horário reduzido durante a madrugada.
Eu faria uma conexão de 6 horas em Doha, por isso comprei o acesso da gigante sala VIP Al Mourjan da Qatar Airways, exclusiva para passageiros em classe executiva ou clientes pagantes, e ela estava praticamente vazia – o que, convenhamos, foi ótimo.
Sala VIP Al Mourjan, da Qatar.
Aliás, se você puder acessar a Al Mourjan, eu certamente recomendo. A sala tem espaços amplos, várias áreas de descanso, duchas com produtos Diptyque, restaurante com serviço à la carte, bar completo, spa e controle de ocupação. Esqueça mini salgadinhos e fila: isso sim é sala VIP.

Já para quem faz uma conexão longa e deseja sair do aeroporto, seja para um tour por Doha ou até para se hospedar na cidade, é necessário passar pela imigração. Brasileiros não precisam de visto para entrar no Qatar, apenas apresentar os documentos exigidos, como passagem de saída do país.
Uma parada em Doha pode ser bem interessante. A cidade tem hotéis de alto padrão com bons preços e ainda oferece a chance de conhecer um importante centro de cultura árabe durante a conexão.

Essa provavelmente é a principal dúvida de quem tem voos com Qatar Airways, Emirates ou Etihad nas próximas semanas – ou mesmo de quem encontra uma promoção dessas excelentes companhias, como a classe executiva para Atenas via Doha que divulgamos na semana passada aqui no Melhores Destinos por menos de R$ 10 mil.
Pelo que vi (e o que estamos vendo) até aqui, a operação está relativamente estável. Milhares de passageiros seguem viajando normalmente todos os dias por Doha, Dubai e Abu Dhabi, e os grandes hubs da região continuam funcionando de forma bastante organizada.

Mas seria exagero dizer que tudo voltou completamente ao normal. Até porque, o mundo não anda normal faz um tempo, rs. Ainda existe instabilidade política na região, algumas rotas seguem suspensas até meados do segundo semestre e o cenário pode mudar rapidamente dependendo da evolução (ou não) das negociações entre Estados Unidos, Israel e Irã.
Por isso, mais do que nunca, vale acompanhar os alertas das companhias aéreas e o noticiário em fontes confiáveis, manter o seguro-viagem em dia e, se possível, priorizar hotéis e passeios com cancelamento flexível. A boa notícia é que, até aqui, Qatar Airways, Emirates e Etihad têm sido relativamente transparentes e flexíveis com passageiros afetados por alterações operacionais.

Claro, também existem relatos de problemas e transtornos – o que é inevitável em uma crise desse tamanho -, mas, considerando o volume gigantesco de passageiros impactados nas últimas semanas, eles ainda parecem relativamente pontuais.
Ao mesmo tempo, eu também não daria nenhum ouvido aos “profetas do fim do mundo”, que tratam qualquer conexão no Oriente Médio como uma aventura insegura ou desaconselham automaticamente voar com as companhias do Golfo, seja agora ou no futuro.
Uma coisa é acompanhar a situação com responsabilidade; outra é transformar cautela em preconceito ou alarmismo. Dubai, Doha e Abu Dhabi seguem sendo alguns dos hubs mais importantes e eficientes do mundo, operados por companhias e profissionais excelentes. A avaliação precisa ser feita com base em fatos e não em medo genérico ou em críticas rasas à região ou pior, aos povos árabes, como infelizmente também têm há em alguns comentários nas redes sociais afora.
No fim, existe uma avaliação pessoal de risco, conforto e flexibilidade que cada viajante precisa fazer.
Talvez a parte mais honesta dessa viagem seja perceber como a aviação consegue praticamente parar… e depois voltar à vida em questão de semanas.
Sim, as companhias aéreas merecem críticas quando falham – e elas falham bastante. O suporte da Qatar aos clientes afetados nas primeira semanas do conflito deixou a desejar: poderia ter facilitado remarcar em voos alternativos com parceiros on-line, por exemplo.
Mas ver uma operação desse tamanho sendo reorganizada em meio a uma crise geopolítica tão delicada também mostra o nível de complexidade – e de profissionalismo – envolvido na aviação internacional.

Há pouco tempo, aeroportos vazios, espaços aéreos fechados e milhares de passageiros presos pareciam cenas difíceis de imaginar em uma região tão importante para conectar Europa, Ásia e Oceania. Hoje, os aviões voltaram a decolar, as conexões estão acontecendo novamente e a sensação geral é de retomada, ainda que cautelosa.
Doha e Dubai claramente ainda não voltaram ao movimento de antes. Turisticamente, talvez não voltem tão cedo. Mas as cidades seguem funcionando, os aeroportos continuam impressionantes e milhares de pessoas seguem cruzando o Oriente Médio todos os dias rumo aos mais diferentes destinos do planeta.
Inclusive eu, agora falando da Ásia, chegando aqui via Oriente Médio.
E você, tem voo com a Qatar, Emirates ou Etihad em breve? Já teve nesses meses turbulentos? Compartilhe como está sendo sua experiência!
Fonte: melhoresdestinos.com.br